30 julho, 2005


14h30, canal 1, Portugal no Coração. Mísia, convidada, conta a história de uma cantora que vivia num hotel, entediada, e cujo psicoterapeuta lhe havia sugerido que fizesse “coisas com as mãos... para ocupar o tempo...”. E tendo ela seguido o conselho e ao cabo de um mês ter munido cada hóspede do dito hotel com o seu exclusivo casaquinho de malha, havia mergulhado então na tarefa de vestir os electrodomésticos do hotel (mais feliz agora o frigorífico com o seu pullover azul !) Jurava também a cantora que o cacto que estava no hall de entrada lhe andava a piscar o olho (o seu maior desejo, o que ele curtia, mesmo, era uma camisola justa, de decote em V)...

Incapaz de acompanhar tal sucessão de metáforas com significados profundamente implícitos e antes que ela, ou mesmo o canastrão Malato, ou os dois, se pusessem a cantar o fado, resolvi consultar o meu horóscopo no teletexto. Tarefa que se revelou desastrosa: de facto o meu domínio do comando da TV não é já tão completo como o do teclado do 3310 em que escrevo sms, pelo que fui parar directamente à SiC. Ao às duas por três...

Não estava preparado, admito que não estava. Entrei em pânico, reajo mal em situações de tensão...
Admiro e respeito o Zé Figueiras desde a sua primeira aparição em calções e e meia branca pelo joelho a cantar o Odelei-i-i-i-u-u-u, mais tirolês que a Pipi das meias altas (ou a Heidi, eu confundo sempre as duas. E também faço confusão com aquela freira do “the hills are alive...!!”).


E por isso mesmo não estava preparado para o que vi: o Zé ameaçava grosseiramente a Rute Marlene! Que a faria tomar um duche no chuveiro colocado em pleno estúdio caso não acertasse ‘a’ resposta... Não me tranquilizou a confiança que tenho na vastidão da cultura da Rute. Nem me tranquilizou o esgar maquiavélico da assistente que, em fio dental e pouco mais, trazia o cartão com a pergunta a ser colocada.




Rute enfiava as havaianas e entrava resignada na redoma de vidro, enfrentando já derrotada o seu destino molhado. Um tipo distinto, de óculos (provavelmente tão famoso, prestigiado e talentoso como o Figueiras mas que eu nunca tinha visto) começava então a leitura solene da pergunta que ditaria o desfecho. Temendo o pior (que a Rute resolvesse tirar a roupa, não que ficasse ensopada!) fechei os olhos...

Ouvi o tipo talentoso dos óculos terminar a questão mas em vez de soar um rufo eis que irrompe a música, festiva, conferindo a serenidade necessária aos instantes de reflexão a que a Rute, caridosamente, teve direito.

Sereno fiquei eu também, acho que adormeci, pareceu-me ter tido um qualquer sonho estranho entretanto... mas lá reabri os olhos, mesmo a tempo! A Rute havia respondido correctamente! O sabor da sobremesa preferida da assistente menos vestida do programa do Figueiras era mesmo morango!

Ecologicamente correcto (atravessamos tempos de seca severa) e tendo a Rute, brilhante no seu raciocínio, acertado, o produtor optou por não a lavar, não com água. Houve uma chuva de papeis coloridos e riram todos, ininterruptamente felizes e aos pulos até às 15 ...