13 junho, 2005



É quando a chuva cai, é quando
olhado devagar que brilha o corpo.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada

Aqui me tens, neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito...

Cala-te. A luz arde entre os lábios
e o amor não contempla,
o amor procura sempre,
tacteia no escuro.
Esta perna é tua? É teu este braço?
Subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à tua língua,
morreria agora se mo pedisses.

Dorme.
Nunca o amor foi fácil, nunca.


Eugénio de Andrade
1923-2005

Não lho pediram, decerto... Pedir-lhe-iam que ficasse, nunca que partisse...


(
photo by Tiago Estima)