Deitou três vezes as mãos em concha à cara. Só à terceira a água fria se fez sentir na carne ainda adormecida e embalada por todos os pesadelos. O frio desceu até ao estômago. Ainda é noite e já é dia. Já é outro dia.
Decisões:
"É sentado na sanita, enquanto se esfrega a cara, que se tomam decisões."
Então decidiu viver mais um dia.
Um de cada vez, uma cereja. Apenas mais uma cereja de um cesto cheio até mais não. Cheio até ao último dia.
Até mais não ser.
"E eu que só cuspo os caroços; a carne polposa das cerejas engole-a sei lá quem ou o quê."
Riu-se do corpo. Sorriu-se da alma.
"Maldito corpo. Quero é alma até aos calcanhares!"
Engoliu Deus e o Diabo – com fibras e sem açúcar - e saiu de casa.
Assim. Sem mais nem menos.
"Não vale a pena murmurar palavrões. Que se foda."
Manuel Sampaio
