Ela disse isto e depois calou-se(...). A frase(...)produziu uma pequena escuridão no espírito do homem.
“Sinto que o corpo me aperta a alma, sei lá, que está curto, entendes?, como se tivesse adormecido com quinze anos e acordasse aos vinte cinco ainda com a mesma roupa. Sinto uma grande vontade de despir este corpo e ficar com a alma exposta, inteiramente nua.”
O homem saltou da cama(...) “Não compreendo as mulheres”seria demasiado óbvio. Sentou-se em silêncio, no canto mais afastado do quarto(...).
Ela sorriu: “É assim tão difícil de entender?”
Podia ter dito,”os homens nunca entendem nada”, mas seria inútil.
As mulheres, na verdade, não precisam que os homens as compreendam. Basta que as ouçam.
Ele sabia disso e assim continuou calado
“Às vezes gostaria de poder despir este corpo(...) Farias amor com a minha alma nua?”
José Eduardo Agualusa, in “Catálogo de sombras”
