- Diga-me uma coisa, doutor: o Senhor acredita em Deus?
- É a primeira vez que alguém me faz essa pergunta.
- E o senhor, alguma vez a fez a si próprio?
- É difícil saber.
- Mas não lhe provoca temor uma noite como esta? Não tem a sensação de que há um homem maior do que todos caminhando pelas plantações, enquanto tudo se imobiliza e todas as coisas parecem estáticas à passagem do homem?
- Pode crer que nada disso me perturba, coronel – e agora ele parecia estático, também ele, como as coisas, sob o calor ardente – O que me desconcerta – disse e ficou a olhar-me nos olhos, concretamente, com dureza – O que me desconcerta é que exista uma pessoa como o senhor, capaz de afirmar com segurança que se apercebe desse homem que caminha na noite.
Então eu fui mais longe do que me propunha. Disse:
- O senhor não o ouve porque é ateu!
E ele, sereno, imperturbável:
- Creio que não sou ateu, coronel. O que acontece é que me perturba tanto pensar que Deus existe como pensar que não existe. Por isso prefiro não pensar nisso.
Gabriel G. Marquez in “A Revoada”